Saúde psíquica da população pede socorro na pandemia

Diego Tinoco Rodrigues
Bruno Couto Moreira
Comissão de Defesa do Paciente e Profissional

Março de 2021 foi marcado como um ano de Covid no Brasil e, infelizmente,  não estamos próximos do retorno às nossas  atividades habituais  da pré-pandemia.  Enquanto isso, pacientes de diferentes áreas médicas ficam sem o devido atendimento, e o tratamento de diversas condições de saúde vão se agravando a cada dia.

Isso não é diferente na psiquiatria e na saúde psíquica de todos os seres humanos.

Neste período crítico da pandemia,  não foram raros os relatos em que escutamos nas variadas situações do nosso dia a dia: idosos frágeis ficando isolados em casa sem condição de se alimentar de forma adequada; extremos pensamentos negativos e ruminações depreciativas de provável infecção pelo vírus, o que gerou e ainda gera, uma falsa convicção de morte por parte de muitas pessoas,  julgamentos e sentimento de culpa excessiva pela exposição do vírus a um ente querido ; medo extremo de morrer pelo coronavírus e suas variantes ; sentimento de solidão e falta de compreensão por diversos familiares e amigos, e os sintomas de tristeza, insegurança, irritabilidade, impaciência, frustração, angústia e ansiedade tão vivenciados por muitos de nós, familiares e pacientes.

O medo compartilhado nessa pandemia está gerando não apenas intrigas e discussões políticas entre profissionais, amigos e familiares, mas um alto nível de estresse na população, corroborando com redução de imunidade e maior vulnerabilidade no enfrentamento à doença.

Infelizmente, os serviços de psiquiatria, que deveriam ser priorizados desde o início desse período pandêmico, tornou-se alvo de disputas ideológicas e políticas, onde o maior derrotado é o paciente que  necessita de cuidados rápidos, eficientes e duradouros.

Desde março de 2020, até os dias atuais, o que observamos em termos de saúde pública é uma completa desconexão entre a importância do tratamento e acompanhamento psiquiátrico.  Neste momento pandêmico, mais que nunca, a assistência aos pacientes na saúde pública vem sendo negligenciada,  sobretudo  no  atendimento ao espectro emocional desses pacientes.

O maior símbolo dessa desconexão foi o fechamento do Hospital Galba Velloso, na data do dia 25 de março do ano passado.  Uma das maiores referências em psiquiatria no estado, com 120 leitos, até a data do encerramento de suas atividades . A Fhemig  justificou a atitude pelo argumento de baixa ocupação (88% de ocupação em 2019), e da necessidade de  abertura de leitos de enfermaria para retaguarda à Covid-19.   A justificativa,  visto que o referido hospital ficou fechado até novembro de 2020,  não mostrou razão de ser.  Teoricamente, poderia ser utilizado o hospital de campanha,  montado para leitos de enfermaria, além da existência do anexo hospitalar ortopédico do próprio Galba Velloso, que já encontrava-se fechado desde 2017, com possibilidade de 100 leitos disponíveis, não sendo utilizados plenamente até hoje.

Essa atitude não foi suficiente para as pretensões políticas e ideológicos do comando da Secretária Estadual de Saúde Mental, havendo, ainda, uma tentativa de fechamento do ambulatório em Barbacena  e a suspensão de diversos atendimentos em ambulatórios, Caps ou Cersam de diferentes municípios.

Por algum motivo, os gestores políticos não atentaram para a falta de investimento no tratamento e acompanhamento da saúde psíquica e como a falta dele pode contribuir na piora dos índices de mortalidade e morbidade de diversas doenças, incluindo a Covid-19.

Diversos estudos demonstram associações de fatores psíquicos com a piora do quadro de saúde geral de um ser humano.

Antes mesmo da pandemia ter início, inúmeros estudos já existiam sobre a solidão e o isolamento social: Holt-Lunstad e colaboradores (2015) publicaram uma metanálise onde se  observou um aumento do risco de mortalidade precoce diante de fatores independentes (isolamento social, solidão e morar sozinho). O risco de mortalidade precoce foi considerado maior comparado a pacientes obesos. Valtorta e colaboradores (2016) observaram que prejuízos nas relações sociais estão associados a aumento no risco de doenças coronarianas em 29% e um aumento de 32% em Acidente Vascular Cerebral.

Ojetti e colaboradores (2020) observaram consequências negativas do adiamento de diversos atendimentos de urgência pelo medo de exposição à Covid-19, gerando aumento de morbidade e mortalidade de diversas outras condições médicas.

Análise sobre os pacientes hospitalizados com Covid-19 e a relação com os sintomas de medo, culpa e desamparo foi analisada por Guo Q e colaboradores (2020). O estigma e a incerteza da progressão da doença viral foram as duas principais preocupações expressas pelos pacientes.  Este mesmo estudo observou que a intensidade dos sintomas depressivos poderia estar relacionada  aos marcadores de inflamações nesses pacientes. Wang SC e colaboradores (2021) ressaltaram a importância de aprimorar a psiconeuroimunidade com a melhora do estilo de vida e intervenções psíquicas, ações que podem reduzir o sentimento de solidão neste período.

E para finalizar, a World Psychiatry, com autoria de Wang, Q e colaboradores (2021) observaram que o diagnóstico recente de transtorno mental e infecção por Covid-19 tiveram uma taxa de mortalidade de 8,7%, comparado a 4,7% daqueles que não tinham o diagnóstico recente de transtorno mental. Além do aumento da taxa de mortalidade quase dobrar, também foi observado um aumento da taxa de hospitalização:  27,4% dos pacientes com transtorno mental diagnosticado recentemente,  ante 18,6% dos que não apresentaram o diagnóstico recente.

A literatura sobre o tema é vasta, e por isso não podemos esperar para aprofundar nas discussões sobre a integração das condições de imunidade, fatores de risco das doenças cardiovasculares, saúde psíquica e Covid-19. Negligenciar a importância da prevenção, do tratamento rápido e acompanhamento de tais condições é fechar os olhos para o pedido de socorro de milhões de pacientes.

 

Referências:

Holt-Lunstad J, Smith TB, Baker M, Harris T, Stephenson D. Lonelinessand social isolation as riskfactors for mortality: a meta-analytic review. PerspectPsycholSci. 2015 Mar;10(2):227-37.

Valtorta NK , Kanaan M , Gilbody S , et al Solidão e isolamento social como fatores de risco para doença cardíaca coronária e acidente vascular cerebral: revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais longitudinais Heart 2016; 102: 1009-1016.

Ojetti V, Covino M., Brigida M., et al. Doenças não COVID durante a pandemia: para onde foram todas as outras emergências ?. Medicina (Kaunas) . 2020; 56 (10): 512. Publicado em 1º de outubro de 2020

Guo Q, Zheng Y, Shi J, et al. Sofrimento psicológico imediato em pacientes em quarentena com COVID-19 e sua associação com inflamação periférica: um estudo de método misto. BrainBehavImmun . 2020; 88: 17-27.

Wang SC, Su KP, Pariante CM. As três linhas de frente contra COVID-19: Cérebro, Comportamento e Imunidade. BrainBehavImmun . 2021; 93: 409-414.

Holt ‐ Lunstad, J. (2021), Uma pandemia de isolamento social ?. World Psychiatry, 20: 55-56.

Wang, Q., Xu, R. e Volkow, ND (2021), Aumento do risco de infecção e mortalidade por COVID-19 em pessoas com transtornos mentais: análise de registros eletrônicos de saúde nos Estados Unidos. World Psychiatry, 20: 124-130.

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