Entrevista como professor Jair Soares

Entrevista  com o psiquiatra Jair C. Soares, diretor executivo da UTHealt Harris County Psychiatric Center e professor da University of Texas Helath (UTHealth). O professor Jair esteve na XXI Jornada Mineira de Psiquiatria, discorrendo sobre novos tratamentos para a  depressão ea bipolaridade, quando disse da importância do evento em Minas e de como cresceu e continua melhorando exponencialmente seu programa.

Dr. Jair, na sua participação na Jornada,  o senhor falou, dentre outras temáticas, sobre depressão e bipolaridade e as pesquisas acerca desses transtornos. Nesses casos, comprovou-se que a depressão e a bipolaridade têm aumentado?

Os estudos mostram que a prevalência é estável. Não que a doença tenha aumentado ou diminuído. O que ocorre hoje é que, com a descriminalização desses transtornos na mídia, as pessoas têm mais conhecimento sobre e, consequentemente, a gente consegue diagnosticar mais casos. Antigamente, as pessoas escondiam este tipo de problema, não queriam procurar ajuda. Mas não há dados sugerindo que esses transtornos sejam mais frequentes agora. Acho que é muito mais uma questão de reconhecimento.

E com relação às terapias, quais o senhor acha que funcionam mais?

Existem várias medicações, a questão é achar a terapia certa para determinado paciente, pois uma medicação pode ser excelente para um paciente, já para outro pode não funcionar, causando um efeito colateral nocivo. Mas, de maneira geral, podemos citar os estabilizadores de humor. Temos também uma medicação mais nova, os chamados antipsicóticos atípicos,  os quais também são estabilizadores de humor bastante utilizados. Um outro grupo são as medicações antiepilépticas que também se provaram úteis como estabilizadoras de humor. Para muitos pacientes, a gente deve combinar os estabilizadores e uma medicação antidepressiva, caso o estabilizador sozinho não seja suficiente. Para casos mais graves, ainda temos a eletroconvulsoterapia (ECT), um tratamento antigo mas que é seguro da forma como é realizado hoje.

Existem críticas de uma parte da psiquiatria e de outras especialidades médicas com relação ao uso excessivo de medicamentos. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Acho que isso depende muito de cada caso. Podemos citar como exemplo a depressão: existe um debate se casos mais leves devem ser tratados com antidepressivos ou se podem ser tratados apenas com terapia. A resposta é que podemos sim tratar apenas com terapia, mas, de maneira geral, o tratamento acaba demorando mais, sendo mais oneroso ao paciente. A psicoterapia, por exemplo, deve ser realizada no mínimo uma vez por semana, em casos mais graves, duas vezes… então tem paciente que acaba preferindo tomar o antidepressivo, pois o tempo de melhora também acaba sendo menor. Uma outra área onde se tem muita discussão é em relação ao transtorno de atenção (ADD), pois como as medicações do tratamento causam uma melhora da função cognitiva, a pessoa se sente mais “inteligente”, isto é, se sente capaz de performar melhor na vida diária. Então a discussão é: será que estamos dando medicações para tratar a ADD para gente que não precisa? Novamente, acredito que deve existir um meio-termo, sabe? Mas não podemos recusar a medicação, pois ela traz benefícios em determinados pacientes.

Existem vários tratamentos alternativos, o que o senhor acha deles?

Acho que a ideia é muito interessante, mas eu confio mais em métodos que já foram testados e comprovados. Se formos pensar melhor, inicialmente, todos os tratamentos eram alternativos, até se fazerem estudos que os consolidaram como métodos aceitos e comprovados. Aos meus pacientes eu sempre ofereço, primeiramente, tratamentos já consolidados; caso queiramos tentar algo que ainda não possuímos dados o suficiente, o paciente tem o direito de saber que os resultados não são comprovados. Ao meu ver, o problema é quando se vende coisas que não são testadas e aprovadas, como se realmente fossem – gerando uma exploração e uma dependência comercial do paciente, o qual muitas vezes não entende direito sobre aquilo. Ao invés de apenas vender, seria interessante a realização de pesquisas que comprovasse os efeitos do tratamento, por exemplo.

Como o senhor analisa o crescimento da psiquiatria aqui no Brasil e em Minas?

Acredito que o crescimento aconteça de forma excelente. O Brasil e Minas Gerais têm profissionais de primeira classe, muitos se formaram nos melhores centros pelo mundo e agora atuam em centros com muita reputação, formando profissionais aqui mesmo, em nosso país, sem precisar sair para fora como muitos anteriormente tiveram que fazer. Aqui na UFMG, em outras partes de Minas, em outros estados… é muito gratificante ver a qualidade dos trabalhos desenvolvidos pelos colegas.

 

Foto: Clóvis Campos (AMMG)

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